A cada 20 horas, uma criança é vítima de abuso sexual em Blumenau

A infância deveria ser uma fase de descobertas, brincadeiras e inocência. No entanto, para muitas crianças, esse período é marcado por um trauma invisível aos olhos de muitos: a violência sexual. Os números em Blumenau, terceira maior cidade de Santa Catarina, preocupam. 

Em 2024, o Serviço de Atenção Integral às Vítimas de Violência (SAVS) atendeu 428 casos de violência sexual na cidade, ou seja, a cada 20 horas uma criança foi vítima desse crime. E, apenas entre janeiro e 25 de março deste ano, 86 crianças já foram vítimas de abuso.

Mas há um dado ainda mais preocupante: o número real de casos pode ser muito maior, já que muitas vítimas nunca rompem o silêncio.

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“Os números são alarmantes, mas, na verdade, isso é muito mais. Nem todos os abusos são denunciados. Não é raro, é bastante comum. Quando atendemos uma criança, a mãe muitas vezes relata que também passou por isso, mas nada foi feito. Por isso, serviços como o SAVS são essenciais: eles dão voz a essas vítimas”, explica Gerson Mattos, médico do SAVS.

A rede de apoio e o perfil dos abusadores

Implantado em Blumenau por meio de uma parceria com o Governo Federal, o SAVS conta com uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos, enfermeiros, psicólogos, fonoaudiólogos e assistentes sociais. O serviço atua em conjunto com outras instituições, como a polícia, o Conselho Tutelar e a Delegacia da Mulher, da Criança e Idoso.

“Fazemos parte de uma rede intersetorial. Quando o hospital atende uma vítima, vários profissionais avaliam o caso simultaneamente para verificar se as histórias se confirmam. A partir daí, traçamos a estratégia de ação”, detalha Mattos.

Um dos aspectos mais chocantes da violência sexual infantil é que, na maioria das vezes, o agressor é alguém próximo: um tio, um avô, um vizinho de confiança ou até mesmo os próprios pais. E também não tem distinção de classe social.

“São pessoas que a família confiava para cuidar da criança. Os pais deixam na escola, com um familiar ou um vizinho, e depois descobrem que essa pessoa não era confiável”,   afirma o médico.

Foto: Maurício Cattani/Arquivo Pessoal

Os danos psicológicos e a culpa invertida

Os abusadores frequentemente manipulam as vítimas, fazendo-as acreditar que são culpadas pelo crime. As consequências psicológicas podem ser devastadoras e perdurar por toda a vida.

“Adultos que sofreram abuso na infância costumam desenvolver transtornos de ansiedade, depressão, dificuldades de confiança em relacionamentos e até pensamentos suicidas”, alerta Antonio Gomes da Rosa, psicoterapeuta.

Crianças vítimas de violência sexual podem apresentar mudanças de comportamento, como isolamento, queda no rendimento escolar e medo excessivo. Muitas vezes, a própria família, fragilizada emocional ou economicamente, acaba culpando a criança ou ignorando o abuso.

“É comum a mãe, diante de um abuso cometido pelo padrasto, por exemplo, ter dificuldade de romper a relação e acabar censurando a criança”,  explica Rosa.

Como denunciar e quebrar o silêncio

Especialistas reforçam que a denúncia é fundamental, mesmo diante do medo ou da vergonha.

“Muitas crianças não contam porque têm medo de que os pais briguem com elas ou porque o abusador ameaça matar a família se ela revelar o crime”, diz Mattos.

A pena para abuso sexual infantil varia de 8 a 15 anos de prisão, mas, para que o agressor seja punido, é preciso romper o silêncio.

“Se eu pudesse dizer algo para os pais, seria para não terem medo de conversar com seus filhos sobre abuso, educação sexual e sobre o que deve ou não ser permitido, incluindo as áreas do corpo onde o toque não é aceitável. Além disso, é fundamental adotar uma conduta não punitiva com a criança. Nós, que ouvimos as crianças, percebemos que muitas dizem: ‘Eu não contei nada porque achei que você ia brigar comigo’ ou ‘Não contei nada porque ele me ameaçou, dizendo que, se eu contasse, iria matar vocês’. O que impede a criança de relatar o abuso é o medo”, explica o médico do Savs.

Foto: Maurício Cattani/Arquivo pessoal

Onde denunciar:

  • Polícia Militar (190): em casos de risco imediato
  • SAMU (192): para emergências médicas
  • Delegacias especializadas (da Mulher, da Criança ou qualquer DP)
  • Disque 100: denúncias anônimas de violação de direitos humanos
  • Conselho Tutelar: presente em todas as cidades, pode acionar a polícia e abrir inquérito
  • Profissionais de saúde: médicos, psicólogos e enfermeiros são obrigados a notificar casos suspeitos

    Reportagem, Maurício Cattani

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