A resistência dos exilados

Todo regime ditatorial persegue seus principais opositores, e por isso mesmo todo movimento de resistência precisa contar com a leva dos exilados. Dentro de um território que já foi dominado pelo crime organizado ou por um consórcio corrupto, há limites para o que pode ser feito “dentro das quatro linhas”. Basta ver as nações em estágios mais avançados de tirania, como Venezuela e Nicarágua, onde os líderes da oposição foram presos.

O Brasil caminha a passos largos nesta direção. Temos presos políticos, censura prévia a jornalistas e inquéritos do fim do mundo que servem como pretexto constante para intimidar os críticos do sistema golpista. E claro que o maior alvo dessa gente que recolocou o ladrão da cena do crime, como diria seu próprio vice, é Jair Bolsonaro. Ter ficado inelegível já foi um absurdo, mas não bastou: eles querem sua prisão!

Uma coisa é certa: Bolsonaro é perseguido por suas virtudes patrióticas, não por qualquer crime que tenha cometido. E é perseguido justamente pelos mais corruptos da história deste país

É nesse contexto que seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, vem fazendo um excelente trabalho no exterior, mostrando para todos os abusos de poder em nosso país. Por conta dessa proximidade, em especial com a gestão Trump, Eduardo Bolsonaro foi claramente ameaçado com a perda do seu passaporte. Acatando pedido de petistas, Alexandre de Moraes – sempre ele! – deu cinco dias para a PGR se manifestar, mas Gonet resolveu ignorar e hibernar.

Até que o próprio deputado tenha tomado a decisão, acertada a meu ver, de permanecer nos Estados Unidos e se licenciar da Câmara dos Deputados. Horas depois, Gonet se manifestou contrário o confisco do passaporte e Moraes arquivou o caso. Eles nem tentam mais disfarçar! É tudo escancarado mesmo, feito às claras, em praça pública. Só os militantes das redações não enxergam o óbvio, pois não podem, por ossos do ofício – aquele que remete à profissão mais antiga de todas.

Há debates dentro da direita se o deputado Eduardo Bolsonaro fez o certo ou não. Uma coisa está clara: não é um ato de covardia. Covardia seria ele se apegar ao cargo, ficar quieto no Brasil, aceitar as imposições supremas e trair sua causa. Cada um terá em sua própria consciência até onde está disposto a ir, sem dúvida. Ninguém é obrigado a ser um mártir. Há espaço para diversos tipos de perfil e de luta. Precisamos dos mais pragmáticos que tentam fazer ponte com o sistema, dos mais aguerridos que se arriscam no próprio país subindo o tom, e dos exilados que desfrutam de maior liberdade para “tocar a real” e conseguir ajuda internacional. É como num time de futebol: tem que ter várias posições.

Aqueles que falam que é fácil se exilar deveriam lembrar que Allan dos Santos ficou três anos longe de sua família, que Paulo Figueiredo está sem seu passaporte e sob censura, além das contas bancárias congeladas, a mesma punição que eu mesmo enfrento há dois anos – e não tenho dúvidas de que esse estresse em nada ajudou na questão do câncer que estou enfrentando agora. Pagamos um preço bem alto, mas não vamos abandonar a luta. Cada um do seu lugar, com seu papel. E o deputado Eduardo Bolsonaro agrega muito perto de Washington, de onde pode vir uma cavalaria de peso para colocar alguns freios nos abusos supremos.

Resta a situação do próprio Jair Bolsonaro. Ele já disse que nem pensa em pedir asilo numa embaixada, mas se eu fosse ele não descartaria isso. O STF não precisa de um pretexto para meter uma preventiva: o julgamento mais politizado do planeta vem aí, os ministros petistas têm pressa, e querem a prisão do ex-presidente. Bolsonaro pode ajudar mais de dentro da prisão, como Daniel Silveira, ou da embaixada americana, denunciando ao mundo todo o que se passa em nosso país? Eis a questão.

Mas cada um é dono do seu nariz, e uma coisa é certa: Bolsonaro é perseguido por suas virtudes patrióticas, não por qualquer crime que tenha cometido. E é perseguido justamente pelos mais corruptos da história deste país.

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